Mulheres
Invisíveis

Nos cantos das ruas gastas pelos passos de todo dia, estão aquelas que não são vistas, muito menos ouvidas. Carregam em cicatrizes – nas que afloram e nas que ficaram por dentro – as marcas de histórias de sofrimento, perdas e uma luta quase inexplicável pela vida. Mesmo que, para alguns, não faça sentido batalhar por uma vida que não tem endereço fixo, número de telefone, nem vínculo ou carinho, as ruas estão cheias de Micheles, Elacis, Mercedes e Valquírias. Mulheres que resistem e ainda sorriem, mesmo que ninguém veja.

Como as personagens apresentadas a seguir nesta reportagem mostram, a trajetória de uma mulher de rua é, geralmente, marcada pela violência. As dores são particulares. Elas carregam a culpa da família que poderia ter sido e que não foi. Passam por consecutivas gravidezes de risco e, quando dão à luz, ficam acompanhadas apenas pelo vazio em seus colos. Elas têm a feminilidade e o próprio corpo como um perigo constante do qual não podem se dissociar. Mesmo com histórias tão diferentes entre si, essas mulheres têm um ponto em comum, a vulnerabilidade.

“A mulher na rua sempre tem que ter um marido. Se ela tem, ela apanha de um e dá só para ele. Se ela não tem, ela apanha de todos e dá para todos”, explica, categórica, Vera Lúcia Gomes, assistente social do Albergue Municipal de Porto Alegre. A mulher de opiniões polêmicas e frases fortes comanda com mão de ferro o principal albergue da cidade, que tem capacidade para receber cerca de 150 pessoas. Em seus 12 anos de experiência à frente da instituição, Vera não se anestesiou pela dureza da história de vida das pessoas em situação de rua.

O termo, que substitui a antiga expressão “morador de rua”, tem poder semântico. Afinal, morar tem a ver com se relacionar com um espaço onde estejam referências e afetos. Morar é ter um vínculo, e isso não acontece na rua. De acordo com o censo feito pela Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC), 17% da população da capital gaúcha que já perdeu esses laços com um lar é composta por mulheres. Isso significa que, em 2011, ano do último levantamento, a cidade tinha cerca de 230 mulheres nas ruas. Uma minoria no universo de outra minoria. Mesmo passados três anos, não é difícil perceber que as mulheres seguem como uma pequena parcela dessa população.

De acordo com Vera, a explicação para os números é que as representantes do sexo feminino acabam recaindo sobre outros arranjos familiares antes de irem para a rua. “Elas arrumam um trabalho como cuidadora ou empregada doméstica. Elas, geralmente, têm uma serventia para os familiares antes de serem colocadas para fora de casa”, avalia. As mulheres vão para rua como último recurso. Afinal, a violência não é igual para eles e elas.

Mesmo as que têm pulso firme enfrentam o pavor de serem estupradas ou violentadas em qualquer medida. As dificuldades de viver nas ruas impõem um acordo tácito de que, mesmo que haja cooperação coletiva em alguns momentos, quando as coisas se tornam mais perigosas, é cada um por si. Isso faz com que elas estejam sempre munidas de facas ou vejam o relacionamento como uma forma de proteção, que pode ou não estar acompanhada por sentimentos. Com o abuso sexual, vem a bola de neve da gravidez indesejada e das doenças sexualmente transmissíveis, inclusive a Aids.

Outro ponto crucial na vida das mulheres de rua é que seu corpo pode ser uma moeda de troca. Assim, a prostituição acaba soando, para algumas, como um caminho possível para se levar a vida ou somente manter os vícios. Não raro, elas saem de casa por causa das drogas.

Cada vez mais comum, o crack tem tomado o espaço antes ocupado pelo álcool e mudou a realidade das ruas. Existe um novo cenário que está mais intimamente ligado à droga e à violência, no qual a força dos homens acaba se impondo.

Ao mesmo tempo que a rua é difícil para a mulher, muitas criam gosto pela liberdade que ela proporciona. Desaprendem a viver em ambientes que não sejam de trânsito. Muitas se dividem entre o desejo de reconstruir um lar e a vontade de não ter as responsabilidades que um CEP traz. “Quem chega carrega consigo planos de que a situação seja provisória e de que logo ela esteja embaixo de um teto novamente”, comenta a assistente social. Mas, uma vez nas ruas, o tempo de permanência só vai tornando mais difícil o restabelecimento do vínculo dessa pessoa com a família e da lógica de manter-se em um lugar fixo.

Cada uma constrói sua forma de lidar com as inconstâncias de uma vida na rua. Para umas, o alento pode estar nas fotos de um passado feliz que agora fica guardado dentro de um carrinho de supermercado enferrujado. Para outras, a conformação pode vir com os pequenos confortos diários de uma cama box aqui, um rádio de pilhas ali. Mas, para muitas, nada vai trazer de volta os sonhos que o passado tirou.

Michele - sonhos interrompidos
Elaci e Mercedes - esperança de voltar
Valquíria - sem palácio

Michele

Sonhos interrompidos

“Eu nunca imaginei que teria uma casa com número e endereço”, diz Michele Aparecida Marques dos Santos, 31 anos, abrindo um largo sorriso de dentes espaçados ao descrever a localidade da Vila Cruzeiro onde mora com o marido há um ano. Grávida de seis meses, quer dar, ao filho que carrega no ventre, condições que suas outras quatro crianças não puderam receber: casa e família.

Morena, esbanja simpatia com as gargalhadas fáceis e uma habilidade impressionante de se comunicar.

É assim que conquista os leitores que passam pelas cercanias de um shopping na zona sul de Porto Alegre e lhe pagam R$ 2 pelo jornal Boca de Rua, produzido e vendido por pessoas em situação de rua. Tais qualidades também foram determinantes para que ela sobrevivesse durante 18 anos na rua.

“Cada canto que eu fosse, se eu quisesse dormir na casa de alguém, eu podia. E, se eu quisesse dormir na rua, tinha vários conhecidos para dividir um colchão”, relata, orgulhosa por ter construído uma eficiente rede de amigos.

Filha de catadores de lixo, conta que os pais não mediram esforços para criar os cinco filhos. Quando o casal viajou a São Paulo para que a mãe realizasse uma cirurgia de redução de estômago, nunca faltou nada: além dos seis salários mínimos que tinham de arrecadar para o procedimento, sobrava dinheiro para ser enviado às crianças, que ficaram sob os cuidados dos avós na capital gaúcha. “No meu aniversário de sete anos, até me mandaram presente pelo correio. Era um conjunto da Barbie completo”, relembra.

Tudo corria bem até que o pai de Michele sumiu e abandonou a mãe em terras paulistas. Sozinha, a jovem voltou para casa, mas a depressão pela separação fez com que os problemas com bebidas alcoólicas fossem agravados pelo uso de drogas. As sucessivas internações e o temperamento difícil da mãe fizeram com que a adolescente de 13 anos fugisse de casa e parasse nas ruas.

Numa rotina bem diferente da que vivera antes, o mundo das drogas lhe foi apresentado por meio do solvente. Também conhecido como loló, era o mais barato dos entorpecentes e o que a jovem mais facilmente tinha acesso. Com os amigos, buscava o líquido em garrafas de plástico “no morro”. Sem conseguir se controlar, a menina inalava cerca de um litro do fluido a cada dia.

Quando recém havia completado um ano na rua, Michele estava grávida. Aos 15 anos, andava com Gustavo a tiracolo pelas avenidas da cidade. Para manter o filho consigo, tinha de dormir em casas de conhecidos. Mas, quando o bebê completou oito meses, foi deixado com a avó para que a adolescente pudesse voltar a viver como antes. Neste meio tempo, uma nova gravidez fora descoberta e um aborto ocorreu aos três meses de gestação.

Poucos meses depois, uma marca – que carrega na face até hoje – lhe foi imposta aos 16 anos por uma das quatro facadas que levou de um namorado. Ao cogitar o fim do relacionamento de duas semanas, Michele deparou com um companheiro agressivo, que destoava da pessoa pela qual tinha se apaixonado.

“Quer ficar comigo?”, perguntou o namorado.

“Não, vou voltar para o pai do meu filho”, respondeu Michele.

“Se tu não ficar comigo, não vai ficar com ninguém. E eu vou te retalhar todinha.”

Quatro cortes pelo corpo

O homem sacou uma faca e deferiu uma punhalada no rosto da namorada. Michele estava tão drogada, conta, que sequer sentiu. As outras facadas vieram a cada não que a jovem repetia. Foi a mãe da adolescente quem implorou que ela respondesse sim para salvar a própria vida.

“Eu fico contigo”, finalmente respondeu, depois de ter quatro cortes profundos pelo corpo.

O relacionamento durou mais quatro meses. Terminou quando ele foi preso em casa por roubo. Transferido para o presídio de Osório, no litoral norte, tirou das costas de Michele um namoro que já não era mais feliz.

Três anos depois, aos 19, engravidou do segundo filho. A novata usuária de crack saiu com uma amiga que se prostituía para comprar a droga. Michele resolveu que faria o mesmo e, aos sete meses de gestação, aceitou fazer um programa que quase lhe custou a vida. Em um terreno baldio, guardava no sutiã o adiantamento do pagamento, quando o homem a sufocou com as mãos.

“O cara me tapou o nariz e a boca, disse que não fazia programa com mulher grávida. Aquele dia, eu vi a morte. Saía sangue pelo meu ouvido. Tem gente que gosta de ver sofrimento dos outros. E ele estava gostando do que estava fazendo”, relembra.

Os pedidos por socorro eram intercalados por momentos em que lhe faltava fôlego para se manter em pé. Quando já estava no chão, sobre um tronco de árvore, seguranças de uma casa de bailes próxima chegaram para averiguar de onde vinham os gritos desesperados. O homem, que havia pago metade do programa, disse ter sido assaltado, tomou o dinheiro de volta e deixou a jovem ao relento.

Logo depois do episódio, Michele conheceu o jornal Boca de Rua por meio de um amigo. Ele a levou à reunião de pauta que ocorria próximo ao auditório Araújo Vianna, localizado no Parque Farroupilha, a Redenção. Desde então, a jovem participa da produção e venda do periódico impresso.

Sem ter de carregar o segundo filho nos braços, pois o bebê fora recolhido pelo conselho tutelar aos seis meses, ela gastava o pouco dinheiro que ganhava com crack. A realidade durou até os 22 anos. Uma ameaça de overdose fez com que a jovem prometesse à mãe que não usaria mais a droga.

“Eu sabia que o crack era mais fácil de me dar convulsão. Como tinha usado loló por nove anos, tomava remédios para parar de cheirar. Quando fui no psiquiatra para falar que também usava crack, ele receitou remédios mais fortes. Em final de mês, quando meu namorado recebia o salário, tomava só um remédio de manhã (eram três por dia). Certo dia, passei mal. Não sei o que aconteceu: se foi muita droga, ou efeito do remédio. Porque, no final do mês, tinha droga em quantidade e de vários tipos”, descreve.

A mistura não fez bem a Michele. Sofrendo convulsões, foi levada ao hospital pela mãe, que lhe fez jurar que não passaria pela mesma situação novamente. Durante três anos, a recomendação materna foi obedecida. Aos 25 anos e grávida do terceiro filho, a jovem começou novamente a utilizar a droga: “Eu voltei. Mas sabendo o seguinte: eu que uso a droga. Não a droga que me usa. Eu sei a hora de parar.”

Com 31 anos, vive situação semelhante novamente. Michele está esperando o quinto filho – o quarto é criado pela família do pai – e continua fumando crack. Mas moderadamente, afirma. O que diferencia as duas ocasiões é que, agora, ela tem casa e marido. Azul e de madeira, a peça, sem banheiro, acomoda uma cama de solteiro e uma pia velha que serve como apoio para os pertences do casal. Um cobertor vermelho com estampa xadrez pendurado em uma das paredes protege o recinto da luminosidade que adentra pelas frestas entre uma tábua e outra. A simplicidade do local preenche em Michele o vazio que os 18 anos de rua deixaram.

Palavra única

“Para a mulher ser respeitada na rua, ela tem de ter uma palavra única. Manter a palavra. Quando disser não, o não tem de ficar. Quando disser sim, o sim tem de ficar. Então tem de ser uma decisão concreta. É como minha mãe me ensinou: tudo que a gente começa, a gente termina. E eu sabia que, se não fosse terminar uma coisa, eu nem começava.”

Com as palavras da mãe em mente, Michele iniciou o casamento, mas espera que a relação não rompa tão cedo. Há um ano com o marido, conta que tem tudo o que precisa para ser feliz e é grata pela ajuda da sogra e da cunhada, vizinhas de terreno.

Até outubro, Michele ainda não sabia o sexo do bebê. Mas sua intuição – que não falha, ela garante – diz que dará à luz um menino. Será batizado de Giovane, para seguir a tradição dos irmãos, que também receberam nomes iniciados com a letra G ou J. “Eu estou construindo uma família que entende minha situação, sabe como eu vivo. Então eu posso criar meu filho aqui”, projeta.

O que ela mais quer proporcionar ao filho é estudo. Se não fosse a educação, cogita, ela estaria “afundada no mundo da droga”. Com a quinta série completa quando criança, decidiu retomar os estudos aos 20 e poucos anos, fazendo três classes em um ano e obtendo, com orgulho, o diploma de ensino médio completo.

Orgulhosa por ter feito uma média de 723 pontos quando precisava apenas de 500 para passar, diz que frequentar a escola é tão importante quanto ter uma casa para morar.

Sem sonhos e vivendo um dia após o outro: assim Michele se define. Ela não gosta de planejar a vida, pois “só Deus sabe o que pode acontecer”. Pega de surpresa, se viu imaginando como será a sua velhice.

“Eu quero ter cabelo branco. Tenho tanta vontade de ter”, devaneia, com o olhar distante.

Como se quisesse espantar com a mão a cena que lhe brotou de supetão, se ajeita na cadeira e arrisca, de um jeito maroto e esboçando um sorriso traiçoeiro: “Enquanto eu tiver vida, eu tô aí”.

Elaci e Mercedes

Esperança de voltar

Foi o orgulho que botou dona Elaci Lopes da Silva na rua. Aos 60 anos, prefere gastar o pouco que ganha com uma alimentação digna a pagar aluguel. Além disso, rejeita a casa nos fundos de um terreno oferecida por um parente, pois não quer “morar de favor”. Na companhia da filha Mercedes, de 27 anos, e da vira-lata Carminha, a aposentada mora há pouco mais de um ano sob a marquise de uma loja na Avenida Azenha, em Porto Alegre.

“Eu não tenho condições de pagar aluguel. E não quero pedir favor para a família. Posso sair da rua, tenho para onde ir. Mas prefiro estar na rua do que pedir favor para parente”, desabafa.

Apesar de uma infância conturbada, Elaci diz que nunca lhe faltou nada. Aos cinco anos, a menina nascida em Minas do Leão – cidade com sete mil habitantes localizada na Região Metropolitana – teve de ser adotada por uma família desconhecida na Capital. Seu pai, em regime semiaberto, fora preso por matar a mãe. Ela foi degolada em uma das visitas do marido em casa, na frente da filha mais velha, em uma das saídas do presidio. Os avós, para tirá-lo da cadeia, gastaram com advogados e não tinham mais condições de criar os seis netos: doaram as crianças.

Após a mudança, a infância de Elaci foi como a da maioria das pessoas: o tempo era dividido entre os estudos e as brincadeiras. Mas o período mais esperado do ano eram as férias. Com a família adotiva, passava o verão inteiro na praia de Pinhal, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul. A boa vida que relata ter tido motiva as reflexões sobre sua atual situação: “Eu não me considero moradora de rua. Moradora de rua é quem nasce e vive na rua. Elas nem sabem o que é ter uma casa com banheiro.”

Casamento na igreja

Logo que começou a trabalhar, aos 14 anos, largou a escola após completar o primeiro grau, o atual ensino fundamental. Era ajudante de limpeza em um laboratório do bairro em que morava – função que exerceu nos outros empregos, em hospitais.

Aos 22 anos e grávida, Elaci casou com direito a cerimônia na igreja e festa para amigos e familiares. O vestido longo e branco foi costurado pela mãe adotiva. O pai de criação, por sua vez, a levou até o altar, orgulhoso, como mostra a única foto que guarda, em uma sacola com outros pertences, da ocasião. As demais, nas quais o marido aparecia, foram jogadas fora.

A união com o homem dez anos mais velho que conhecera ainda quando criança não durou muito. Ao entrar em casa depois de um dia de trabalho, encontrou seu bebê de seis meses morto na cama de casal. Os culpados, conta a aposentada, teriam sido o marido e a amante dele, que estavam no quarto quando ela chegou. Pois não titubeou: tacou fogo na residência alugada no Bairro Sarandi. O ato, porém, lhe rendeu uma internação de seis meses por problemas psicológicos.

A sucessão de fatos negativos fez com que Elaci tirasse uma temporada de férias em Santa Catarina. No estado vizinho, viveu o que define como uma “aventura” e engravidou aos 32 anos. Já de volta a Porto Alegre, deu à luz a filha Mercedes. Assim como a mãe, a mulher de 27 anos diz não ter queixas de sua infância. “O que eu fazia era brincar no pátio com meus amigos. Também gostava muito de pular corda”, conta.

O ano de 1997 foi determinante para mãe e filha. Sem direito à herança dos pais adotivos, Elaci ficou sem a casa onde morava com Mercedes quando eles morreram. A partir daí, começaram a morar de aluguel em bairros humildes de Porto Alegre, como Teresópolis, Nonoai e Ponta Grossa. A menina de 10 anos teve de parar os estudos na quinta série.

Já com um novo companheiro, Elaci se mudou para Viamão, na Região Metropolitana. Auxiliada pela filha, cuidou do marido nos últimos quatro anos de vida dele. Com câncer, necessitava de tratamento especial. Sem condições de bancar os remédios sozinha e cansada de esperar pelo fornecimento gratuito do Governo, a aposentada fez um empréstimo de R$ 4,2 mil. Mesmo com os esforços, o marido não resistiu.

O desconto em folha das parcelas do financiamento mingua a aposentadoria de um salário mínimo de dona Elaci a R$ 400 mensais, o que não é suficiente para pagar aluguel, segundo as duas. Desde que saíram de Viamão, elas vivem na rua e o dinheiro é gasto, basicamente, com alimentação: as duas não abrem mão de “tomar Nescau com pão e mortadela” todo dia de manhã. A vianda de feijão com arroz e massa do almoço é comprada num barzinho próximo à praça onde passam a tarde. Elas se recusam a comer em locais que oferecem comida gratuita ou a baixo custo para pessoas carentes.

“Eu não como sopão porque eu tenho nojo. Então prefiro comer um pão com mortadela e banana e tomar refrigerante do que comer aquilo, porque, com comida, eu sou muito chata. Até minha cadelinha é chata para comer. Bota feijão e arroz na frente dela para ver se ela come. Só ração”, afirma Elaci.

A aposentadoria que sustenta as duas também serve para pagar os banhos a R$ 25 no Centro Estadual de Treinamento Esportivo (CETE), localizado no Bairro Menino Deus. Uma vez por mês, elas usufruem dos chuveiros do local. Nos demais dias, a higiene acontece “apenas no principal”, diz Mercedes. As roupas são lavadas com o suporte de baldes e sabonete. Os banheiros utilizados são os de terminais rodoviários. “Ou, quando eu estou muito apertada, vou em qualquer canto mesmo”, admite dona Elaci.

Todos os dias, a jornada das duas se inicia às 5h30min, horário em que começam a desocupar o espaço em frente às portas das Lojas Americanas. Quando os atendentes do estabelecimento chegam, por volta das 7h, o local não aparenta em nada a casa improvisada que virara na noite anterior. A dupla já está instalada numa praça próxima, vigiando os três carrinhos que carregam sacolas com roupas, alimentos, água e a vira-lata Carminha.

Perto das 19h, dona Elaci começa a varrer a calçada abrigada pela marquise da loja enquanto Mercedes organiza a estrutura para passar a noite: caixotes de madeira forrados com tecido almofadado servem como banco e os colchonetes são onde elas conseguem espichar o corpo.

Munida de uma barra de ferro, a aposentada faz crochê enquanto a filha dorme na calçada. Depois de um certo tempo, elas mudam de função.

Exibindo uma cicatriz no lado esquerdo da face, Mercedes lamenta que seja tão perigoso viver na rua. A marca é consequência de uma garrafada que levou da mulher que teria matado o primeiro filho de dona Elaci. “Ela veio em direção a mim com uma garrafa de cerveja na mão e tocou na minha cabeça. Levei 15 pontos”, relembra.

A amante do primeiro marido da aposentada ainda as atormenta. Segundo Elaci, a mulher busca confusão e provoca a dupla sempre que possível: “Ela tem filhos. E eu nunca faria com ela o que ela fez com os meus. Só espero que Deus saiba o que faz”.

As duas ainda têm de conviver com os assaltos: há cerca de um mês, levaram o celular de Mercedes. Também não foram poucas as vezes em que sacolas de roupas lhes foram furtadas. Mas, dos males, o menor, destaca dona Elaci. A aposentada fica aliviada por nunca terem tentado abusar sexualmente de nenhuma delas, apesar de a pressão pelo uso de drogas e bebidas alcoólicas ser grande. Resistindo aos aliciamentos de outras pessoas em situação de rua, elas tentam levar a vida o mais dignamente possível.

Sem receber auxílios ou doações de terceiros, a única fonte de renda das duas é a aposentadoria. Em 2013, Mercedes começou a vender DVDs. Não deu certo. A prática fez com que ela conhecesse o ex-namorado, de quem engravidou. Seguindo a mesma sina da mãe, não viu seu primeiro filho crescer: o bebê morreu na hora do parto. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) não acusou doença nenhuma, afirma.

Minha Casa, Minha Vida

Assim, a única companhia que restou foi a cachorrinha Carminha. Apaixonada por televisão, Mercedes diz que o aparelho é a coisa da qual ela mais sente falta da época em que tinha uma casa. Impossibilitada de assistir às novelas, a fã das telinhas compra revistas de fofoca para acompanhar as tramas.

O nome da cadela vira-lata foi inspirado em uma das personagens principais da novela Avenida Brasil, exibida pela Rede Globo no ano de 2013.

Também foi nas revistas que Mercedes conheceu o programa do governo federal Minha Casa, Minha Vida. A mãe já se inscreveu diversas vezes para ser beneficiada. Mesmo acreditando que há poucas chances de receberem uma das residências populares, dona Elaci não quer deixar o pessimismo rondar as duas.

“Não dá para perder a esperança. Estou falando, estou enxergando e estou caminhando. Posso comer, chegar num bar e almoçar. Não tenho do que reclamar. Se o governo não faz nada para os aposentados, não sou eu quem vou fazer”, suspira.

A um mês de voltar a receber a aposentadoria integral, quando termina de pagar o empréstimo, Elaci e Mercedes têm um sonho em comum: sair da rua. O Natal de 2014 traz o desejo de que as duas voltem a dormir sob um teto e que a foto da filha à frente do mapa-múndi na escola saia das sacolas e volte para um porta-retratos em uma cômoda qualquer.

“Espero que tu não nos encontre mais aqui, moça”, se despede, esperançosa, dona Elaci.

Valquíria

Sem palácio

Quem passa pela Câmara Municipal de Porto Alegre provavelmente nem vai notar as lonas e barracas que ocupam um pequeno espaço entre a cerca do órgão público e os tapumes de uma construção. Lá vive Valquíria Silveira Silva, uma senhora que adora ficar sentada sobre sua cama box – que de tão alta a deixa com os pequenos pés rechonchudos balançando no ar – enquanto escuta um radinho de pilha. Em dias de sol, a cama, seu xodó, fica coberta por uma colcha limpa e bem esticada que ela exibe com orgulho. Na Aldeia, como ficou conhecido o pequeno acampamento da Avenida Loureiro da Silva, vivem Valquíria e outras 10 pessoas aproximadamente. O número varia, pois nada é fixo na rotina de quem enfrenta as intempéries a céu aberto. A cada dia, um chega e outro vai.

A senhora de 48 anos é a única mulher que fica no local na maior parte do tempo. Há cerca de cinco meses, ela e o marido, junto com outras pessoas em situação de rua, começaram a se estabelecer no espaço. Hoje, eles já têm já fogão, armários, cadeiras, sofás e barracas. Tudo improvisado, mas em ordem. Para Valquíria, esse tempo na Aldeia tem sido valioso, já que – desde que eles se mudaram – ninguém tentou removê-los ou levar seus pertences. “Nos outros lugares, a gente sofria muito, porque eles (Brigada Militar) vinham e levavam tudo que a gente tinha, botavam fora até nossas comidas. Depois a gente ficava sem ter onde dormir e o que comer”, conta.

Para o sustento, Valquíria conta com os R$ 79 que recebe pelo Programa Bolsa Família somados ao dinheiro que ela e o marido fazem vendendo material reciclável que coletam nas ruas, em média R$ 20 por dia. Mas a maioria das coisas chega mesmo é como doação. Em um carrinho de supermercado, ela guarda cada objeto como uma verdadeira relíquia. Lá estão roupas, sapatos, maquiagens, perfumes e cremes. Os resquícios de esmalte nas unhas das mãos e dos pés revelam a vaidade que persiste mesmo com a aridez de ser mulher na rua. As disputas do dia a dia fizeram com que Valquíria aprendesse a se defender. “Se tu não tens um braço firme, eles dão em ti e te roubam. Eu tinha que ficar sempre me cuidando e ter uma faca junto”, explica.

Apesar disso, a senhora que está há quase quatro anos vivendo na rua, se mudando de um espaço para outro, não reclama da vida que leva. O mais importante para ela é a liberdade. Desde pequena, quando morava com os pais em uma casa convencional, Valquíria estava sempre fugindo e voltando.

Mais tarde, foi viver com uma tia, mas também não se adaptou. “Ela era muito ruim, tinha muita regra, por isso eu escapava para a rua”, argumenta. Ao longo dos anos, Valquíria teve três filhos, dois homens e uma mulher. Cada um com uma história diferente.

O mais velho ela nunca conheceu, foi entregue para outra família criar logo pequeno. O outro menino morreu com cinco meses de vida. Já a mais nova é a que faz o coração da mãe doer de saudade. Simone, de 24 anos, foi criada por ela até os 13 anos. A moça é casada e trabalha como secretária de um dentista. A caçula já tentou levar a mãe para morar em sua casa em Torres, só que, depois de um tempo, Valquíria acabou fugindo na carona de um caminhão de volta para a Capital. Não suportou a falta de liberdade. “Ela é boa pra mim, mas quer que eu fique dentro de casa, não quer que eu namore ninguém, nem que eu saia para lugar nenhum. Ela acha que estou na cadeia”, contesta.

Outro motivo que fez com que Valquíria voltasse foi o marido que havia deixado em Porto Alegre. O ciúme do rapaz 20 anos mais jovem impulsionou a esposa na hora de regressar. Ela e Maurício estão juntos há uma década “entre idas e vindas”, como ele destaca com bom humor.

O casal se conheceu nas ruas, e Maurício foi, além de um parceiro, uma proteção para Valquíria. Cansados de ir de um lugar para outro, eles foram morar em um cômodo no antigo Chocolatão, conhecida vila de catadores de lixo da capital gaúcha. O aluguel da peça era de R$ 5 por semana.

Os dois ganharam carrinhos e começaram a trabalhar na coleta de materiais. Ela comenta que chegou a faturar R$ 100 em um dia, por causa da grande quantidade de papel branco que juntava.

A perda da casa

Em 2011, com a remoção da vila, ela recebeu uma casa de 43 metros quadrados na Avenida Protásio Alves. A moradia tinha dois dormitórios, sala, cozinha, banheiro, tudo o que Valquíria sempre sonhou. Mas não durou muito tempo. Por causa de conflitos entre o marido e gangues da região, a esposa considerou mais prudente vender a casa. O dinheiro entrou só no início, em pequenas parcelas, e não dava para pagar um aluguel. Segundo ela, o comprador ainda deve R$ 3 mil do que ficou acertado pelo imóvel, que já são dados como um valor perdido. Depois que voltaram para as ruas, o rumo foi incerto. Valquíria e Maurício viveram em outra área perto do Parque Harmonia e depois foram para um local mais próximo do Rio Guaíba. Sobre a opção de frequentar um albergue ou abrigo, ela sequer cogitou a ideia. Apesar de já ter sido abordada muitas vezes, diz que nunca foi, mas sempre ouviu falar que lá os pertences são roubados e o piolho é garantido. “Eu estou legal. Minha cabeça não tem piolho, minhas roupas e coisas estão junto comigo. Nunca gostei disso”, diz, franzindo o cenho.

Desde que se estabeleceu na Aldeia, a vida deu uma guinada importante. Valquíria está frequentando a modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Porto Alegre. A senhora que pouco sabia ler e menos ainda escrever já está se aventurando até nos cálculos matemáticos. Ela chega cedinho no colégio, onde pode tomar banho e se alimentar, e encara a sala de aula como um refúgio. Valquíria está cursando a terceira série do ensino fundamental e exibe orgulhosa “ótimos” espalhados pela professora no caderno pautado. “Os professores são muito bons. Eles não têm nojo da gente, abraçam, conversam se a gente está nervoso e explicam as coisas com paciência”, elogia. Educação Física não é seu forte, mas admite que “gosta mesmo é de escrever”. Com o fechamento previsto do EJA que Valquíria frequenta, a caneta provavelmente vai ficar de lado. Mas a aluna, agradecida pelo que a escola tem lhe oferecido, não aceita. Tanto ela quanto Maurício participam dos movimentos que defendem a permanência do atendimento especial no colégio, uma história ainda sem desfecho.

Ela se orgulha por não ser usuária de nenhum tipo de droga. Sempre muito lúcida e atenta. Até as outras pessoas em situação de rua que também vivem na Aldeia comentam, admiradas, a falta de vícios de Valquíria. “Para não mentir, eu já fumei maconha, mas só isso. Aquilo dá uma fomeira na gente, não gostei”, confessa. Para ela, o grande problema da maioria das mulheres que vivem nas ruas hoje em dia é o crack. Elas acabam movidas pelo impulso da droga, pensam constantemente em satisfazer a necessidade de consumir a substância e isso torna difícil o dia a dia. Por vezes sisuda, Valquíria diz que é a “falta de vergonha na cara” que arrasta tantas mulheres para o crack.

Da vida, ela guarda alguns arrependimentos. Um deles é o de não ter contato com o filho mais velho, que, hoje, deve estar com cerca de 32 anos. Mesmo sem nunca ter visto o filho depois do parto, ela tentou uma reaproximação. A filha Simone fez o intermédio entre a mãe e o irmão, mas não teve uma resposta acolhedora. A garota resolveu, então, apresentar a família para a mãe usufruindo das vantagens da tecnologia. Mostrou fotos das redes sociais e Valquíria descobriu que já é avó. “Minha neta deve ter uns dois aninhos agora, bem pequeninha, bonitinha, com os cabelos crespinhos”, conta.

A outra mágoa que carrega é ter vendido a casa que ganhou após sair do Chocolatão. Por já ter sido beneficiada, Valquíria acredita que não tem mais direito a receber uma habitação do governo. A esperança é que Maurício, o atual marido, consiga um lugar para chamar de seu e leve junto a companheira de uma década. “Se eu tivesse uma casa, ia ser que nem um palácio para mim, eu ia cuidar muito. Aqui é bom, mas é melhor ter o lugar da gente”, divaga a senhora.

Vivendo na Aldeia, apesar de faltar um teto, sobra a liberdade que ela tanto aprecia. Depois que volta do colégio, escolhe se quer ir recolher material reciclável ou ficar deitada lendo o jornal. Com quase 50 anos, ela revela que tem optado bem mais pela cama do que pelo carrinho. O papel do casal dentro da comunidade é de liderança. Se Maurício se declara, em tom de brincadeira, como o cacique da Aldeia, Valquíria não precisa nem falar. Uma mulher que visitava a ocupação a anuncia como a “chefona”. Ela nega, mas impõe respeito com o olhar.

Sem a dentadura, a cara fechada é uma marca. Mas, vez que outra, a alegria quase impertinente de Valquíria vence o sofrimento e extravasa em um sorriso raro.

Projeto de Graduação em Jornalismo da ESPM-Sul
Reportagem: Renata de Medeiros e Tatiana Reckziegel
Fotografia: Desirée Ferreira
Orientação: Profa. Dra. Ângela Ravazzolo